Mariana está obcecada por um garoto

/ sexta-feira, 27 de dezembro de 2013 /
Mariana era obcecada por esse cara. E a era digital complicou mais ainda as coisas.

Ela postava no Facebook só coisas que tinha pensado sobre antes, com muito cuidado. Será que ele vai curtir?, ela se perguntava. Será que vai passar uma imagem interessante de mim?

Ele no Instagram. A cada meia hora dava uma checada pra ver se tinha alguma atualização nova. Cada foto, seja de nuvem ou de algum livro que ele estava lendo, deixava Mariana mais obcecada por sua personalidade. Obcecada e encantada. Estava tão vidrada no garoto que ele poderia estar lendo Nicholas Sparks que ela ia achar interessante - provavelmente ele estava fazendo aquilo de um jeito irônico.

No Twitter, passava minutos em cada atualização, tentando achar algum significado escondido em cada uma e, assim, talvez, alguma indireta. Para ela. Checava quem dava reply, sobre o que eles conversavam e tentava entender as piadas internas entre ele e seus amigos.

Começou a construir um mundo ao redor dele. Viu em seu Facebook que tocava violão, então se imaginou no quarto do rapaz, deitada em sua cama, no crepúsculo do dia, enquanto ele dedilhava e cantava músicas para ela. Podia até ser Los Hermanos. Depois, ele deitaria com ela, a encheria de beijos e os dois falariam de coisas que não tinham contado antes para ninguém, e diriam que eram de cada um, de cada um, de cada um e mais ninguém.

Um comentário intimista no último status dele no Facebook. Quem era aquela menina? Ah, na verdade, a conhecia. Ela não era nada demais em termos de aparência, mas fabulosa em termos personalidade. Era feminista, letrada, talentosa. Mariana chegou a conclusão que era daquilo que ele gostava. Feminista ela já era - ou pelo menos estava no caminho de ser. Ainda estava se educando e ainda cometia tropeços, mas ia chegar lá, um dia.

Mariana percebeu, neste exato momento, que não estava sendo muito feminista. Obcecada por um garoto e deixando sua vida inteira rodar com ele no centro. Mas e a liberdade? E se ela QUER que ele seja o centro, pelo menos por duas míseras semanas?

Pensou que talvez fosse dondoquinha demais. Pensava em sexo demais. Ele era nerd, talvez queresse alguém mais dorky. Mas ela valorisava sua aparência como mulher, e tinha orgulho disso. Usava maquiagem pesada, fazia escova no cabelo, ouvia Beyoncè e aspirava ser poderosa e gostosona que nem ela. Sabe aquele trecho na Lana? "If I get a little prettier, can I be your baby?" Bem, esse talvez não fosse o caso.

Mas Mariana não queria nada demais, pelo menos era o que ela dizia. Mariana era gato escaldado. Mariana só queria alguém para querer e que a quisesse. Praia ao entardecer, picolé na praça, chopp no Buxixo. Um amigo, um amigo.

Ela desligou o computador e foi comer pizza.

isso e aquilo e tudo o mais

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Isso, uma bagunça. 24 horas do dia sentidas em forma de um coração batendo forte, martelando cada sentimento que existe em mim. Eu sou aquilo que me passa, aquilo que me vem, aquilo que me atinge. Eu sou isso, aquilo e tudo o mais que me faz eu. Eu sou todo o empilhado de erros, de "não sei o que fazer", de "talvez eu me arrependa", de "com certeza vou me arrepender". Eu sou isso, aquilo e tudo o mais que parece que não me faz quem eu sou. Não só a procura eterna e inútil do eu verdadeiro me forma. Meu coração e seus erros constantes me fazem mais eu do que qualquer outra coisa. Isso, aquilo e tudo o mais, no final, é uma vida de erros e pulos no escuro.

Impasse oral

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- Quero dizer, não deve ser difícil.
- Sim, cara, mas você precisa entender...
- O quê?
- Que você não pode, tipo, deixar na mão dele todo o trabalho.
- Tá, então o que eu faço?
- Fala como você quer.
- Mas e se eu não souber como eu quero?
- Como assim?
- Porra, eu não sei o que eu quero. Como eu quero. Como eu vou saber disso?
- Ué, sabendo.
- Mas sabendo COMO? Tem uma aula, tipo, no colégio ensinando que não tinha no meu?
- Não, mas é óbvio. Pra gente.
- O que você quer dizer com "a gente"? Eu não sei como eu quero que um cara me chupe. Como eu vou saber disso?
- Você vai sabendo, cara. Vai falando pra ele onde é bom.
- Tá, mas esse é o problema, eu não sei onde é bom.
- Não é possível. Você nunca, você sabe, tipo, se tocou e sabe onde você gosta?
- Ah, não me vem com essa de bater uma ok? Eu faço isso mas o ato não me esclarece como instruir um cara a me...

Pausa. As duas trocam olhares de resignação.

- Ok, ok, eu não sei como você pode não saber, mas eu entendo.
- Não, você não entende!
- Olha, é que pra mim é claro, ok?
- Mas como assim é CLARO?
- Só É, cara.
- Tá, e você não pode me explicar? Você é minha amiga. Você totalmente DEVERIA.
- Mas como eu vou te explicar o jeito que eu gosto?
- E como eu vou explicar pro cara como EU gosto? Você não tá vendo o problema aqui?
- Mas você não sabe nem o que VOCÊ gosta.
- Sim, eu sei.

As duas suspiram, frustradas.

Bebendo um pouco mais da cerveja que seguram, uma pensa que a sociedade feminina - "não seríamos uma irmandade? Por que ninguém simplesmente me explica?" - tinha falhado com ela e a outra, triste - "quero dizer, eu também não sei explicar para ela, né?" -, queria simplesmente que existisse algum tipo de manual.
No final, as duas chegam num impasse oral.

Carolina (C.)

/ sexta-feira, 7 de junho de 2013 /
“Sei que aí dentro ainda mora um pedaço de mim...” 

Mariana escreveu as palavras acima no espelho com batom. Estava se arrumando para ir em uma festa na casa da Matriz e estava uma neurose que só vendo. Rímel, uma, duas, três, quatro vezes. Blush, um pouquinho. Pegou o batom descompassado por causa da escrita no espelho e passou nos lábios cheios. Uma, duas, três, quatro vezes. Sacudiu o cabelo e partiu de lado, deixando a linha da partida quase lateral. 

Pegou o vestido preto brilhante do cabide e vestiu. Achou as mangas muito compridas (iam até o cotovelo) e rasgou as duas, deixando um ar meio punk com aqueles pedaços desfiados. As botas eram de salto 10 cm e de couro preto. No som, alto, Joan Jett e sua banda gritavam bem alto.

“Ch-ch-cherry bomb!”

Dançou um pouco um pouco em frente ao espelho e trocou a música, colocando NERD e sua “Lapdance”. Retocou o batom, apesar de tê-lo passado a poucos minutos.

*

A fila aumentava, mas Carolina conseguiu um lugar na frente ao pedir um cigarro para um conhecido de pista e ficou por ali, olhando pra tudo e pro nada, para não dar pinta de fura-fila. Ela conseguia ver a porta do inferninho e a porta vibrando com a batida lá dentro. “They Said that teenagers scares the living shit outta me!”. Era a Noite do iPod, onde pessoas na multidão eram escolhidas e tinham a chance de tocar 5 músicas.

Enquanto a fila andava, Carolina (C, como gostava de ser chamada) comprou um maço de cigarro de um ambulante. Até entrar de fato na casa, boom boom boom, tinha fumado quase metade de um maço.

O ambiente de dentro de uma boate alternativa era o clima favorito de C. O cheiro de cerveja, detergente de pinho, suor e cigarro era sua mistura favorita. A batida do seu coração sintonizou com a música e ela já foi aceitando uma cerveja que um cara lindo de olhos verdes e barba ruiva lhe ofereceu. Ela o conhecia de ficadas passadas, mas ela tinha enjoado – mas não o suficiente para aceitar bebidas de grátis.

A música, seu coração, um arrepio. Começava a suar por debaixo dos cabelos curtos, repicados e com uma mecha rosa na ponta. Tinha feito isso hoje, quando decidiu que ia sair. Três palmos de cabelo vieram ao chão quando ela passou a tesoura desordenadamente nos fios castanhos claros.

Alguém tinha colocado Britney Spears e é de conhecimento geral da nação que, se Britney está tocando alto perto de você, não resta nada a não ser dançar.

Um cara alto, de barba por fazer e isso foi tudo que ela enxergou veio por trás, colando em seus quadris que iam de lá para cá. C riu, deliciada, eufórica, extasiada. Virou e começaram a se beijar. O beijo espalhou fragmentos de poder dentro da garota, e ela caçou mais a boca do desconhecido. Largou-o o no meio do beijo e seguiu para o banheiro, sem olhar para trás.

Em frente ao espelho do banheiro de quase luz nenhuma, viu os entornos de sua boca marcados de carmim. Ela riu de novo, daquele jeito maníaco que sempre a atacava. Retocou o batom e voltou para a pista, dançando Scissor Sisters.

*

C. encontrou com uma amiga da noite, e ela dançaram inseparáveis. Daquele jeito que só as meninas dançam entre si. Provocante. Pele na pele, se encaixando, o cheiro do cabelo da outra era tudo que uma sentia. Elas estavam suadas e o roçar dos corpos deixava C. ainda mais quente. Quando elas se beijaram, um babaca se aproximou tentando entrar no meio, mas sua amiga o enxotou e elas continuaram a dançar como se fossem só uma e a beija como se uma só fossem.

C. recebeu o comprimido diretamente da boca da amiga, de língua para língua. Não perguntou e nem pensou, só engoliu. Em três minutos, tudo parecia vibrar com o triplo de vida. Ela sentia prazer até nas pontas dos dedos. Sua nuca coçava de vontade.

A vida na pista de dança de uma festa é uma parte independente. É como se fosse outro mundo. Quando elas pararam e foram ao banheiro, perceberam pessoas sentadas, bebendo e conversando, outras sozinhas encostados nas paredes.

Sua amiga a puxou para uma baia no banheiro e trancou a porta. C. viu duas fileiras de coca branquinhas se formando no espelhinho de maquiagem da amiga. Fungou uma, a outra fungou outra. Se atracaram aos beijos com o pico da pílula e da farinha se encontrando e saíram 5 minutos depois, cada uma para um lado.
C. avistou um garoto encostado na parede e beijou-o sem demora. Ele timidamente colocou as mãos em seu quadril e C. as empurrou para sua bunda. Estava totalmente pirada e pilhada. O beijo do rapaz da parede parecia ser o beijo que mais continha delícias em toda sua vida.

Ela se separou, se afastando. Ele fez menção de ir atrás e ela fez que não com a cabeça. Ele pareceu meio aborrecido e voltou ao seu lugar na parede.

Provavelmente sua cara estava toda lambuzada de batom novamente, mas ela não importava. Foi para o caixa, pagou sua entrada e entrou no taxi mais perto.

Em casa, lentamente, tirou o vestido, as botas, o rímel, toda a maquiagem. Se viu nua e sem nenhuma máscara em frente do espelho. A euforia, a sensação de estar no topo o mundo, a coca, o comprimido misterioso, tudo estava caindo da sua cabeça. Correu para seu banheiro e vomitou, grande parte fora do vaso.


Quando sua mãe a encontrou, duas horas depois, ao se levantar as seis para sua corrida matinal, encontrou Carolina ainda chorando copiosamente no canto do banheiro.

mini peça

/ terça-feira, 19 de março de 2013 /

[voz em off] Eu comecei a notar um padrão para a depressão. Ela vem como uma nuvem preta inesperada, que nem os temporais de verão. Ela chove em você pensamentos nunca antes imaginados, e você se encharca.

[o palco se acende e lá está uma menina toda molhada] você já parou para pensar que foi o espermatozoide errado? Só pelo fato de ser rápido não significa que era pra ser você. É pura sorte. Talvez você esteja aqui erroneamente. Você não é especial. Você só é rápido.

[alguém surge, revirando os olhos] Vê se cresce. "Espermatozoide esperto"? Essa é o que, a desculpa mais esfarrapada do milênio?

[menina molhada] Não fode. O que você queria que eu fizesse?

[alguém] Dê jus ao seu espírito espermatozoide e saia nadando por aí. O que você encontrar é lucro.

[menina molhada] Não fode.

[os dois se beijam]
 
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