Lisa

/ quarta-feira, 28 de março de 2012 /
Lisa se descobriu grávida.
O bastãozinho tinha ficado rosa, aquela coisa idiota. Tinha lhe custado quarenta e cinco reais e tinha ficado rosa. Como ele ousava, ela não sabia.
Mas o pior de tudo, o que não saía da cabeça de Lisa, o que rodava e rodava e rodava dentro do seu crânio era: e nem foi bom.

E nem tinha sido bom.

Lisa levantou do vaso, ainda olhando para o bastãozinho. O que ela ia fazer? Simplesmente, o que ela ia fazer? Não iria manter a gravidez. Não, não ia. Nem mesmo cogitava. Nem mesmo cogitava se ver grávida. GRÁVIDA. Desde quando? Ah, sim, ela lembrou. Desde aquela vez.

Ela já odiava o bebê. O feto. A célula. Lisa nunca tinha prestado muito atenção na aulas de biologia - e pra que prestaria? Não entendia alunos aplicados. Por quê? Pra quê? A vida é muito mais que isso. Ficar grávida é muito mais que isso, não tem nem como comparar.

O banheiro rodou. Ela voltou a sentar no vaso e abaixou até sua testa encostar nos joelhos. O que ela ia fazer? Como ela ia tirar aquilo de dentro dela? Não era fruto de nada. Não ERA nada. Podia muito bem ser um vírus que se infiltrara em seu corpo contra sua vontade. Mas quando ela tinha um vírus ou uma bactéria ou um verme, Lisa sabia o que fazer: ela tomava um remédio. E continuava tomando até tudo sair dela. Até ela ficar bem de novo.

Que remédio ela tomaria? Que remédio? Ela pensou se sangraria muito. Logo em seguida, pensou em qual seria o dia melhor para realizar o plano que ela não conseguia nem começar a formular na cabeça (que remédio?!). Sangraria muito? Doeria muito? E se ela perdesse muito sangue? E se ela precisasse ir para o hospital?

Ninguém podia saber. Ninguém podia saber que o bastãozinho estava rosa e ninguém podia saber o que ela pretendia fazer. E se ela perdesse muito sangue, nenhum médico poderia saber. E eles falariam. Eles falariam tudo. E isso seria mais uma marca, pra sempre em sua vida, pra sempre, até Lisa morrer, pra sempre, "pelo menos eu não fiz um aborto", "me contaram que você abortou, como você conseguiu?", "não consigo ser amiga de uma assassina", "era pra ter sido você", "acho que a gente precisa terminar".

Ninguém podia saber. Ninguém podia saber, mesmo. Tentou levantar de novo e não conseguiu. Estava tão enjoada e tão cheia de vertigem com tudo que teria que fazer, com tudo e como tentaria fazer, seu coração batia tão rápido e tão forte que vomitou em cima de suas pernas, tudo ali. Seu almoço. Que sua mãe tinha preparado. Que tinha preparado como preparava todo dia, cuidando de sua filha, de sua filhinha. Lisa abriu um pouco as pernas e deixou o vomito escorrer para o vaso. A comida. Ainda podia ver o macarrão sua mãe tinha preparado.

Pra sua filhinha.

Pra sua filhinha que tinha sido estuprada.

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