Maria

/ domingo, 1 de abril de 2012 /
Para Maria, a pior sensação que existia era não sentir nada.

Uma vez ela bateu a porta no dedinho da mão de propósito, só pra sair daquele estado entorpecedor que vivia lhe acolhendo. Era como uma nuvem, sempre ali presente, em cima dela e, quando ela menos esperava, ela descia e se emaranhava por seu corpo. Estrava em seus poros, pelos seus ouvidos e desligava seu cérebro. E ela não sentia nada.

Era como se gritasse e o eco persistisse para sempre. Ela fazia as coisas sem nem mesmo ver. Quando dava por si, já estava na cama, olhando para o teto, completamente vazia. Então Maria apertava as unhas na mãos até começar a sangrar e pulsar e latejar, como se com o sangue saísse também a nuvem.

Com os anos, ela achava mais e mais meios de impedir que a nuvem abaixasse. Quando tinha 12, aprendeu a se tocar e por 2 segundos seu corpo todo se contraía e seu coração parecia parar e enviar sangue para todos os lugares bons. Ela respirava fundo e ficava prostrada, toda suada, feliz em poder sentir.

Quando tinha 14, assistiu com apatia os garotos se aproximando. Eles falavam coisas para Maria e ela simplesmente não acreditava nem os chamava de mentirosos. Ela simplesmente ouvia. E então ela começou a deixar que aquela sensação de se tocar se expandisse de um modo novo, como se ela tivesse 4 mãos e fosse assim mais eficiente em manter a nuvem no lugar.

Lá pelos 16, o sexo já não a fazia sentir o tanto quanto queria. Era como se com o orgasmo o entorpecimento se camuflasse, tentando desaparecer mas ainda visível, como se quisesse enganá-la - mas não, já era bem espertinha e se perdia na terra de nada que era seu corpo, seu estado, sua mente.

Suas mãos eram marcadas por cortes de unhas, sua fama era marcada como de puta e mesmo assim ela não sentia. Vagava pelas ruas com o vento deixando seus olhos secos mas nem todo desastre do mundo os faria molhar. Maria nunca tinha chorado na vida. O que mais ouvira da mãe em conversas de família era em como ela nunca berrou quando bebê, nem mesmo quando foi expelida para fora do corpo de sua progenitora.

Tinha visitado médicos. Tinha ido em psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, analistas, psicoterapeutas. Tinha sido apresentada a filmagens curtas de cenas de terror, de amor, de alegria e os fios colados na sua cabeça não mostravam nada de anormal. Maria via tudo, só piscando e nem percebendo.

Tinha, uma vez, aos 18 anos, passado uma semana inteira na cama, só deitada, oscilando entre o sono e o desperto. Virava de um lado para outro. Levantava, fazia xixi, cagava, comia quando sua mãe insistia e bebia quando seu pai brigava. Ela só queria todo mundo fora para ela ficar ali, quieta e parada, quieta e parada.

Outra vez, aos 19 anos, ao ir visitar uma tia que morava no décimo nono andar, Maria foi na janela e olhou para baixo. Seu coração pareceu dar o maior salto de sua vida e ela perdeu o ar. Era aquilo, ela pensou. Era aquilo que ela tinha sentir, aquilo vezes mil, nos breves 3 segundos que demoraria até ela atingir o chão.

Subiu na janela e pulou.

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