As vezes, é tudo o que a gente precisa.

/ sábado, 28 de julho de 2012 /

Vi os dois pulando do sofá enquanto eu abria a porta do apartamento. Lá estava ele, meu namorado, completamente pelado com uma loira imitando a Cameron Dias no cabelo e peitos tão falsos e redondos como se fossem duas bolas de tênis.

Num primeiro momento, eu só fiquei ali, olhando enquanto ele tropeçava nas próprias roupas, gaguejando um início de desculpa. Que patético, pensei. QUE PORRA DE PATÉTICO. A menina nem mesmo se deu o trabalho de olhar para mim: simplesmente levantou a calcinha, colocou o vestido pela cabeça e saiu, passando por mim deixando uma trilha de perfume com cheiro de algum doce que Meninas de Peito de Bolas de Tênis usam. Elas acham o quê? Que cheirando a doce os caras iam simplesmente pular em cima delas e come... ah, sim.

- Olha, amor, desculpa, desculpa, não foi nada, eu a encontrei na fila do teatro do Improv do Flamengo e sei lá, não tem sido eu, eu simplesmente trouxe ela e eu simplesmente comi ela, só comi, nem beijei...

Então, como se a palavra BEIJAR fosse algum tipo de gatilho, eu me transformei no tipo de garota que eu sempre detestei mas, lá no fundo, sempre quis ter coragem de ser: a que grita a todo os pulmões nas brigas com o namorado.

- NÃO BEIJOU? ENTÃO SÓ BEIJOU A OUTRA BOCA, É ISSO? ME FALA, A BUCETA DELA TAMBÉM CHEIRA A BOLO DE AMORAS? – bradei, tirando o casaco e jogando no chão, de alguma forma ainda mantendo a chave da porta na mão e apontando para ele como se fosse algum tipo de arma. – COM PEITOS DE BOLA! PELO AMOR DE DEUS! EU PENSEI QUE SE VOCÊ ME TRAISSE SERIA PELO MENOS COM ALGUÉM MELHOR QUE EU! MEUS QUILOS A MAIS NÃO TEM NEM COMPARAÇÃO COM AQUELE DESASTRE DO SWEENEY TODD! VOCÊ É PATETICO! PATETICO! FODENDO UMA WANNABE QUE QUER SER COMEDIANTE SÓ POR QUE A PORRA DO RAFINHA BASTOS GANHOU UM REALITY SHOW NUM CANAL QUE. NINGUÉM. VÊ!

- Espera, calma amor, o que a gente tem, o que a gente tem é maior que isso, e você realmente não deveria falar assim do Rafinha, e muita gente assiste a Fox-

-MUITA GENTE? QUEM, PORRA? ASSINANTES DO PACOTE BÁSICO DA NET? E PORRA, PORRA, PORRA, COM AQUELE PEITOS? VOCÊ CONSEGUIU APERTAR ELES? – joguei a chave mirando na cara do imbecil pelado na minha frente que eu apresentava como namorado orgulhosamente nas festas, mas o molho de metal caiu no chão bem antes de atingi-lo. – E você SABE O QUE MAIS? SABE? EU ESTOU FODENDO O MARCOS HÁ DOIS MESES! DOIS MESES! QUEM É A PORRA DO CORNO AGORA?

Sim, era verdade. Mea total e absoluta culpa. Guilty as charged. “E como o réu se declara?”, eu ouvia um juiz de Law and Order na minha cabeça enquanto uma descabelada gritava “GUILTY SO FUCKING WHAT? BECAUSE FUCK YOU THAT’S WHY!”.

Marcos era parte dos três inseparáveis amigos que terminava em Jenna, uma inglesa que viajava pelo mundo todo mas de vez em quando passava alguns meses no Brasil. Ela tinha a mãe brasileira e, de alguma forma, conseguia manter seu sotaque mesmo falando nossa língua cheia de Rs. 

Há dois meses atrás, imprimi – de um jeito irônico, claro – o drinking game de memes do 9gag e fui no Marcos jogar com uma garrafa de Chandon na mão. Eu estava sozinha, entediada e meu tão amado namorado estava fazendo uma apresentação de comédia em pé em algum teatro underground no Catete, que, infelizmente, “não incluía cônjuges ou namorados como acompanhantes, nem mesmo da atração principal”. Quando chegamos no quadrinho quinto do jogo, eu e Marcos já estávamos completamente bêbados e com o estômago borbulhando. Acabamos um em cima do outro, nos beijando sem parar, envolvendo nariz e língua e bochecha. O tipo de beijo que só os bêbados entendem.

Quando o vi tirando as calças e aquele pau enorme vindo em direção a mim, lembro que fiquei chocada. Sempre pensei que Marcos fosse gay. Quer dizer, quem usa Ray-ban sem lentes e frequenta o Cinema Estação e discute filmes C do tipo Battale Royale com os caras da locadora? Sem contar que, em 2 anos de festas na Lapa e barzinhos no Flamengo eu nunca o vi ficando com ninguém, só fazendo o impossível: carregando eu e uma Jenna quase em coma alcoólico, uma em cada lado, até o ponto de ônibus.

Quando ele entrou em mim e todo meu corpo pareceu se contrair de um jeito gostoso, eu não acreditei. Eu não acreditei. E não tive que fingir nada. Ele não era gay e eu gozei! Os dois acontecimentos que, juntos, você tem pouquissimas oportunidades de presenciar.

A gente não conversava sobre isso, eu só ia para a kit dele umas 4 vezes por semana e ele já abria a porta me beijando e pegando no meu peito – que não, não pareciam bolas de tênis siliconizadas, apenas dois peitinhos que pareciam mordidas de mosquito inchadas. E OLHA, EU TENHO MUITO ORGULHO DELES. Pelo menos eles mantém a sensibilidade, diferentemente dessas bonecas que perdem a porra da melhor zona erógena só pra ter duas bolas de tênis em vez de um murchadinho feioso mas fofinho e prazeroso.

Voltando a briga digna de Big Brother ou, do jeito como minha vida andava, A Fazenda, continuamos com o barraco:

- Olha só, eu não tiro a sua razão de estar puta comigo por causa da Bá..

- BÁ? BÁ???? O QUANTO MAIS PATÉTICO E MALHAÇÃO ESSA IDIOTA PODE FIC-

- ESCUTA, PORRA. Como eu disse, eu não tiro sua razão. Mas também não vem inventar historinha só pra não ficar por baixo. – ele sentou no sofá e começou a amarrar os tênis. – Todo mundo sabe que o Marcos é gay. Você só está se envergonhando.

Eu não podia acreditar nele ali, calçando os sapatos só depois de ter colocado uma cueca, por que

  1. Onde caralhos ele iria de CUECA e TÊNIS?
  2. A meia dele estava furada, o que me deu nojo agora e me fazia rir de fofura no passado e
  3. ELE ESTAVA SENDO CONDESCENTE COMIGO?
Peguei minha bolsa e joguei em cima dele. Claro, não acertei o alvo. Mas eu estava com a adrenalina muito alta pra perceber isso.

- Gay? GAY? ENTÃO VOCÊ PODE ME EXPLICAR POR QUE ELE ME COMEU TANTO HOJE QUE ACHO QUE NÃO VOU CONSEGUIR MIJAR DE TANTA DOR? – peguei o telefone e disquei o numero de Marcos, estendendo o bocal para o Tênis-Cueca sentado no sofá quando ouvi um “Alô?” do outro lado – ENTÃO COMO ELE ME CHUPOU TÃO BEM QUE EU NEM ME IMPORTEI SE EU TINHA ME DEPILADO OU NÃO? SIM, SEU BABACA, ELE ME CHUPOU E FOI BOM PRA CARALHO, DIFERENTE DE VOCÊ. E você nem COMECE a dizer que nunca ouviu reclamações por que é HORRÍVEL. HORRÍVEL. E entediante. Eu to lá deitada e penso “porra, quando ele vai parar com isso e por quanto mais tempo vou ter que fingir que to gostando? Ah, acho que deixei a bomba ligada”.

Parei ofegante, olhando para a cara de incredulidade do meu recente ex-namorado e com o telefone ainda na mão. Marcos provavelmente estava quieto do outro lado da linha ouvindo, divertido, o barraco.

- Você não vai falar nada, seu imbecil? NADA? SAI DAQUI! SAAAAAAAAAAAAI! – joguei o telefone no chão, que terminou a chamada e provavelmente cortou a diversão do meu amigo que não era tão gay quanro eu pensava.

- Pera, não é assim, tem coisa aqui que é minh-

- AH, você quer dizer esse globo de neve ridículo que sua tia te trouxe da Disney?

Peguei o globo de neve ridículo que a tia dele tinha comprado para ele na Disney e levantei, ameaçando jogar no chão. Ele correu e o tirou da minha mão, saindo do apartamento e batendo forte a porta.

De novo: ONDE ELE IA DE CUECA E TÊNIS? Só por que ele era MALHADO (spoiler alert: ele as vezes injetava algumas coisas. Vai saber. Não me julgue.) não significava que não podia ser preso por ATENTADO AO PUDOR, porra.

Liguei para a Jenna.
 
- Porra, gata, são 1 e meia da manhã e eu to tentando ficar bêbada com uma Natasha que um cara absurdamente lindo trouxe com o pau dele.

- Jenna, cala a boca e vem pra cá. Mandei o namorado Comédia em Pé embora.

Só ouvi o sinal de linha ocupada do outro lado, o que significava que ela estava vindo. Jenna nunca dizia “tá, tchau” ou coisas do tipo, ela simplesmente DESLIGAVA quando já tinha ouvido o suficiente para marcar ou saber de algo. Eu normalmente achava irritante, mas não dessa vez.

Quando ela chegou, eu estava nada mais nada menos fazendo o clichê dos clichês: em cima da cama, rasgando todas as fotos minha e do Comédia em Pé. E fotos dele no palco. E fotos dele na cama, com um olhar lânguido que eu achei artístico e real e sentimental e porra, como eu era uma otária de marca maior.

Jenna simplesmente sentou em cima da cama, deixando o saco grande de Doritos e dois Packs de 6 Heinikens ao seu lado e começou a rasgar fotos também. 

2 horas depois, estávamos pulando na cama em cima de um montão de caras do Comédia Traidor, meio bêbadas e com a boca laranja de tanto Doritos, berrando I'M HERE TO REMIND YOU OF THE MESS YOU LEFT WHEN YOU WENT AWAY IT'S NOT FAIR TO DENY ME OF THE CROSS I BEAR THAT YOU GAVE TO ME! YOOOOU, YOU, YOOOU OUGHTA KNOW!

As vezes, é tudo o que a gente precisa.

1 comentários:

{ Manoela } on: 28 de julho de 2012 06:53 disse...

amo seus textos! profundo e sem mimimi. amo!

 
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