alice e sua pequena alegria

/ sábado, 7 de julho de 2012 /

Alice era uma menina muito infeliz.

Alice não sabia o que fazer da vida.

Ela passava os dias deitada, olhando para o teto e ouvindo seus pais gritando em sua direção. Ela era uma inútil, eles diziam. Ela deveria estar estudando, apesar das férias, eles diziam. Eles gritavam, também, segredos que Alice contava quando estava muito angustiada e, já que não tinha amigos, acabava confiando neles. Alice nunca aprendia.

Acima de tudo, Alice vivia em outro mundo. O grande mundo da sua cabeça. Onde ela poderia fazer o que quisesse e, na vida real, não tinha recursos. Ela saía com o carro que não tinha, com a carteira de motorista que não tinha, via a praia, via o mar, via o Cristo, via os prédios antigos do Flamengo. Entrava no Catete e se deliciava com os sobrados antigos, caindo aos pedaços mas que, em suas mãos (e em sua cabeça), ela encheria de cimento para não cair, pintaria de uma cor pastel e colocaria flores na bancada.

E acordaria sem gritaria. Sem banheiro para lavar e arrumar quase todos os dias. Sem discussão. Sem sua mãe temperamental ou seu pai, que colocava pressão em seu futuro. (um ninguém vindo de lugar nenhum que achava que, só por que ela tinha entrado em uma boa faculdade com um bom curso a vida já tinha sido resolvida. Só dependia dela. E ela não fazia nada. Na verdade, Alice entendia e sentia uma tremenda culpa por não ser o que seu pai queria que ela fosse. Ela o amava, afinal.) 

Tomaria metade de um Rivotril a cada seis horas e escreveria para sites bonitos, fotografaria casais e se encantaria com suas histórias de amor. Chamaria suas amigas e pediria que ficassem sem algumas partes de roupa para fotografá-las. Alice sempre apreciou a nudez feminina – de um modo lírico, com suas curvas perfeitas e todo o poder que elas continham.

E então receberia seu amor, seu menino, voltando do trabalho de terno. Ele a abraçaria por detrás, arranharia sua barba em seu pescoço e diria que estava cansado. Alice, então, ia abraçada com ele até o sofá e o deitaria lá. Enfiaria alguma coisa no micro-ondas para ele – ela não comeria nada. Alice deveria se manter magra; por que quando se é magra, pelo menos uma felicidade em sua vida estaria garantida.
E eles sentariam no sofá, assistiriam algum filme de alguma lista do iCheckMovies. Depois, ele a beijaria, tiraria sua blusa. Ela iria cheirar o pescoço dele, aquele cheiro tão familiar e reconfortante. E eles iriam para o quarto, para, finalmente, uma cama de casal e fazer o que lhes desse na telha.

A louça poderia ficar para amanhã.

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