Caim e Abel

/ quinta-feira, 25 de outubro de 2012 /

A primeira vez que percebi outra pessoa dentro de mim foi quando matei minha mãe.

Eu estava comendo meu café da manhã – pão com ovo e café com leite – e tinha 9 anos. Ela, minha mãe, zanzava pela cozinha, já provavelmente fazendo os arranjos para o almoço. Meu copo ficou vazio.

- Mãe, me dá mais café com leite?

Ela balançou a cabeça e respondeu, nem me olhando:

- Na na ni na não. Se não você não almoça.

A próxima coisa que me lembro foi policiais esmurrando a porta e colocando uma toalha em volta de mim, repetindo que “estava tudo bem, é só não olhar, tudo vai ficar bem”. Apesar dos meus braços banhados de sangue e a grande faca que papai usava para cortar carnes na  minha mão, eles não faziam ideia que eu, um garoto de 9 anos, tinha matado minha mãe a facadas na garganta, até não existir mais um garganta.
Quando os investigadores chegaram e me viram com uma cara aterrorizada, cheio de sangue e abraçando firmemente a faca contra meu peito, as coisas começaram a fazer sentido. Eu não sabia de nada. Eles que me contaram, depois.

A história foi a seguinte: eu, menino de 9 anos, tinha atacado minha mãe do nada (provavelmente o café com leite, lembro agora.). Ela tinha levado 23 facadas no pescoço, até a cabeça se desprender. Eu estava no colo dela. Os vizinhos ouviram os gritos e chamaram a polícia.

Apesar do crime hediondo e brutal, fui julgado como menor. Ninguém no corpo do júri conseguia olhar para mim, um menino gordinho de classe média, de origem tijucana, e que tinha feito tal coisa.

Então, para me pouparem, eles me julgaram inocente. Mas o juiz já tinha experiência com esse tipo de coisa e não deixou barato: me mandou para o juvenil, até que completasse 18 anos.

Demorou muito para descobrir o que eu tinha. Depois de inúmeras brigas e de ninguém entender como eu ficasse tão brutalmente violento de repente, fui levado para área psiquiátrica.

Com 11 anos, descobri que não estava sozinho. Eu, Abel, tinha o Caim. É como se fosse uma piada cármica meu nome e minha doença. Mas é como dizem: Deus escreve certo por linhas tortas.

Caim sempre aparecia em situações que eu não sabia lidar: estresse. Confronto. Ele era extremamente violento, de um jeito bizarro: gostava de mirar o que quer que fosse nos olhos do outro; uma vez arrancou um mamilo de uma vez só com a mão de um garoto do reformatório e, bem, minha mãe.

O engraçado é que eu nunca me senti culpado por Caim. Minha mãe era uma jararaca e todos os meninos do reformatório eram marginais idiotas. De certa forma, talvez ele tivesse surgido dos meus pensamentos mais impróprios... sabe, aqueles que passam rapidinho e a gente se repreende logo de ter pensado aquilo?

Com 18 anos, saí do reformatório. Seria melhor ficar: estava sem um centavo no bolso. Nem para eles darem, não sei, uns 10 reais para um pão com manteiga e uma média no bar mais próximo. Não iria falir ninguém. Um menino de reformatório com nenhum dinheiro, isso que eu era. Não prometia nada.

Andei sem rumo até achar uma pensão. A dona era dessas nordestinas, que conseguia que o volume ficasse todo no seu devido lugar. Tinha mais de 50 anos, mas ainda era muito bonita. Usava um batom vermelho barato e o cabelo enorme todo enrolado, cheio de apliques. Tudo o que ela ouvia era Elza Soares.

Consegui arranjar um quarto, com a promessa que voltaria hoje a noite com os 5 reais da diária. Não sei por que ela confiou em mim, mas confiou. Talvez fosse meu nome e meu jeito educado.

Saí pelas ruas do Rio de Janeiro, mais precisamente as em volta do porto. Alguém que não conseguia trabalho sempre conseguia trabalho ali. Falei com várias pessoas, e ninguém estava aceitando. Andei até o píer 9, sem nenhuma esperança: era o píer dos navios e pessoas chiques.

Para minha surpresa, fui contratado. Ganharia 7 reais por dia para ser um faz tudo: varrer o deque, amarrar bem as cordas do navio atracado. O trabalho era bom e tranquilo. Naquela noite, voltei para a senhora da pensão  e lhe entreguei os 5 reais. De volta, ela me deu um pouco de ensopado, que praticamente só tinha batata e cenoura. Mas, mesmo assim, fiquei agradecido.

Só na segunda semana que Caim apareceu. Um navio de cruzeiro tinha acabado de atracar e a escada já estava abaixada. Eu não lembro de nada, mas isso foi o que me falaram:

Caim entrou no navio antes de alguém descer, trancou por dentro e jogou a chave fora, com uma faca em cada mão. Por quem Caim passasse, ele dava um golpe tão forte mas tão forte que a cabeça da pessoa saía rolando. Uma menina, de 10 anos mais ou menos, teve as pernas cortadas e também o escalpo da cabeça. Ele cortou, também, os seios de 3 mulheres e o pênis de dois homens. Eu me pergunto como ele teve tanto tempo para fazer isso. Não existia nenhum segurança a bordo?

De fora a ajuda não veio, por que os policiais estavam todos concentrados na Copa.

Me falaram que Caim saiu sozinho, ainda segurando as facas. Desceu as escadas, foi até a mesa do chefe, cuspiu o sangue de alguém que estava guardando na boca e sentou no sofá, como se esperasse.

Quando voltei a mim, havia vários homens me batendo. Um dente saiu voando e senti minha mandíbula deslocar. Era o povo do píer 9 e do navio. Eles estavam querendo me linchar. Fiquei quieto e aceitei todos os chutes e socos. Eu era o mártir, eu era o punível de Caim. Já tinha me confortado com isso. Morri ali, com plena consciência disso tudo.

Já tinha me confortado com meu lado mal, negro, sujo, assassino. Um lado que fazia parte de um todo, um lado que fazia parte de mim.

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