Carolina (C.)

/ sexta-feira, 7 de junho de 2013 /
“Sei que aí dentro ainda mora um pedaço de mim...” 

Mariana escreveu as palavras acima no espelho com batom. Estava se arrumando para ir em uma festa na casa da Matriz e estava uma neurose que só vendo. Rímel, uma, duas, três, quatro vezes. Blush, um pouquinho. Pegou o batom descompassado por causa da escrita no espelho e passou nos lábios cheios. Uma, duas, três, quatro vezes. Sacudiu o cabelo e partiu de lado, deixando a linha da partida quase lateral. 

Pegou o vestido preto brilhante do cabide e vestiu. Achou as mangas muito compridas (iam até o cotovelo) e rasgou as duas, deixando um ar meio punk com aqueles pedaços desfiados. As botas eram de salto 10 cm e de couro preto. No som, alto, Joan Jett e sua banda gritavam bem alto.

“Ch-ch-cherry bomb!”

Dançou um pouco um pouco em frente ao espelho e trocou a música, colocando NERD e sua “Lapdance”. Retocou o batom, apesar de tê-lo passado a poucos minutos.

*

A fila aumentava, mas Carolina conseguiu um lugar na frente ao pedir um cigarro para um conhecido de pista e ficou por ali, olhando pra tudo e pro nada, para não dar pinta de fura-fila. Ela conseguia ver a porta do inferninho e a porta vibrando com a batida lá dentro. “They Said that teenagers scares the living shit outta me!”. Era a Noite do iPod, onde pessoas na multidão eram escolhidas e tinham a chance de tocar 5 músicas.

Enquanto a fila andava, Carolina (C, como gostava de ser chamada) comprou um maço de cigarro de um ambulante. Até entrar de fato na casa, boom boom boom, tinha fumado quase metade de um maço.

O ambiente de dentro de uma boate alternativa era o clima favorito de C. O cheiro de cerveja, detergente de pinho, suor e cigarro era sua mistura favorita. A batida do seu coração sintonizou com a música e ela já foi aceitando uma cerveja que um cara lindo de olhos verdes e barba ruiva lhe ofereceu. Ela o conhecia de ficadas passadas, mas ela tinha enjoado – mas não o suficiente para aceitar bebidas de grátis.

A música, seu coração, um arrepio. Começava a suar por debaixo dos cabelos curtos, repicados e com uma mecha rosa na ponta. Tinha feito isso hoje, quando decidiu que ia sair. Três palmos de cabelo vieram ao chão quando ela passou a tesoura desordenadamente nos fios castanhos claros.

Alguém tinha colocado Britney Spears e é de conhecimento geral da nação que, se Britney está tocando alto perto de você, não resta nada a não ser dançar.

Um cara alto, de barba por fazer e isso foi tudo que ela enxergou veio por trás, colando em seus quadris que iam de lá para cá. C riu, deliciada, eufórica, extasiada. Virou e começaram a se beijar. O beijo espalhou fragmentos de poder dentro da garota, e ela caçou mais a boca do desconhecido. Largou-o o no meio do beijo e seguiu para o banheiro, sem olhar para trás.

Em frente ao espelho do banheiro de quase luz nenhuma, viu os entornos de sua boca marcados de carmim. Ela riu de novo, daquele jeito maníaco que sempre a atacava. Retocou o batom e voltou para a pista, dançando Scissor Sisters.

*

C. encontrou com uma amiga da noite, e ela dançaram inseparáveis. Daquele jeito que só as meninas dançam entre si. Provocante. Pele na pele, se encaixando, o cheiro do cabelo da outra era tudo que uma sentia. Elas estavam suadas e o roçar dos corpos deixava C. ainda mais quente. Quando elas se beijaram, um babaca se aproximou tentando entrar no meio, mas sua amiga o enxotou e elas continuaram a dançar como se fossem só uma e a beija como se uma só fossem.

C. recebeu o comprimido diretamente da boca da amiga, de língua para língua. Não perguntou e nem pensou, só engoliu. Em três minutos, tudo parecia vibrar com o triplo de vida. Ela sentia prazer até nas pontas dos dedos. Sua nuca coçava de vontade.

A vida na pista de dança de uma festa é uma parte independente. É como se fosse outro mundo. Quando elas pararam e foram ao banheiro, perceberam pessoas sentadas, bebendo e conversando, outras sozinhas encostados nas paredes.

Sua amiga a puxou para uma baia no banheiro e trancou a porta. C. viu duas fileiras de coca branquinhas se formando no espelhinho de maquiagem da amiga. Fungou uma, a outra fungou outra. Se atracaram aos beijos com o pico da pílula e da farinha se encontrando e saíram 5 minutos depois, cada uma para um lado.
C. avistou um garoto encostado na parede e beijou-o sem demora. Ele timidamente colocou as mãos em seu quadril e C. as empurrou para sua bunda. Estava totalmente pirada e pilhada. O beijo do rapaz da parede parecia ser o beijo que mais continha delícias em toda sua vida.

Ela se separou, se afastando. Ele fez menção de ir atrás e ela fez que não com a cabeça. Ele pareceu meio aborrecido e voltou ao seu lugar na parede.

Provavelmente sua cara estava toda lambuzada de batom novamente, mas ela não importava. Foi para o caixa, pagou sua entrada e entrou no taxi mais perto.

Em casa, lentamente, tirou o vestido, as botas, o rímel, toda a maquiagem. Se viu nua e sem nenhuma máscara em frente do espelho. A euforia, a sensação de estar no topo o mundo, a coca, o comprimido misterioso, tudo estava caindo da sua cabeça. Correu para seu banheiro e vomitou, grande parte fora do vaso.


Quando sua mãe a encontrou, duas horas depois, ao se levantar as seis para sua corrida matinal, encontrou Carolina ainda chorando copiosamente no canto do banheiro.

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